quarta-feira, 20 de junho de 2012

Pé de folha


           Vim de cidade simples, de família simples também. Nessa terra, nesses abraços, tudo é muito bem definido e calmo. Não há verão ou inverno, mas sol ou chuva. E o tempo vai embora e ninguém vê ou se despede. 

           A poeira parece suspensa: amarela as casas, os carros, as pessoas, sobretudo aquelas que ainda nascerão; e estas já nascem marcadas pelo pó que nunca sai do corpo ou das botas no chão vermelho. Poeirinha do ser inteiro. Homens, mulheres e crianças empoeirados. 

          E toda gente trivial quer saber do leiteiro que não passou, do vendedor de laranjas que está passando, do amor que não passará. E a saudade é todo dia, há tempo! Há dias para a porta, para as cadeiras, para o fim da tarde nas calçadas, onde há também conversas, reencontros semanais, desencontros cotidianos, e Deus, e família, e herança e folhas que caem. 

           E as discussões beiram a filosofia, sem ciência, sem doutrina, apenas fé. Porque fé não exige explicações, é fé e pronto. Para quê complicações de livros, pensadores atormentados? A vida é só um fio bem fino prestes a arrebentar. Mas não arrebenta, e Dona Rosa, Seu José também o sabem, e vivem. E sobem em árvores, e cantam cantigas de roda, e choram e rolam no chão de tanto rir; eles brincam, nadam juntos no rio, tornam-se indiozinhos outra vez, e dormem quietos para o fio não arrebentar num suspiro prolongado. 

                 De pés sujos deitamos em cima da cama...

     A cabeça não pensa em coisas difíceis...  

     As folhas caem do pé de folha...

     Mas, silêncio! Quem quer ver?

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