sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Arrumar o quarto

Guardo esta noite para a reconciliação. Quantos voltaram a escrever após arrumarem o quarto. Uma noite inteira para olhar um a um os livros caídos. Se eu pudesse, fotografaria esta cascata. Quanto tempo? Me reconciliar com a poeira dos discos, das revistas, desempilhá-los, observá-los um a um em seu abandono, um quarto. Durante, arroz no fogo, meus dedos abandonam o corte da página, corte preciso, resto de cenoura. Geladeira abandonada. Retorno.


(Clique na ilustração abaixo para ler a crônica na íntegra)



sábado, 11 de novembro de 2017

Amadurecer como a árvore



“Deixe-me fazer-lhe aqui um pedido: leia o menos possível trabalhos de estética e crítica. Ou são opiniões partidárias petrificadas e tornadas sem sentido em sua rigidez morta, ou hábeis jogos de palavras inspirados hoje numa opinião, amanhã noutra. As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. Só o amor as pode compreender e manter e mostrar-se justo com elas. É sempre a si mesmo e a seu sentimento que deve dar razão contra toda explanação, comentário ou introdução dessa espécie. Mesmo que se engane, o desenvolvimento natural de sua vida interior há de conduzi-lo devagar, e, com o tempo, a outra compreensão. Deixe a seus julgamentos sua própria e silenciosa evolução sem a perturbar; como qualquer progresso, ela deve vir do âmago do seu ser e não pode ser reprimida ou acelerada por coisa alguma. Tudo está em levar a termo e, depois, dar à luz. Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, nas trevas do indizível e do inconsciente, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e cada germe de sentimento, e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova claridade: só isso é viver artisticamente na compreensão e na criação.

Aí o tempo não serve de medida: um ano nada vale, dez anos não são nada. Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranquila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão. O verão há de vir. Mas virá só para os pacientes, que aguardam num grande silêncio intrépido, como se diante deles estivesse a eternidade. Aprendo-o diariamente, no meio de dores a que sou agradecido: a paciência é tudo.”


Rainer Maria Rilke, em carta a Franz Xaver Kapus
23 de abril de 1903, Viareggio, perto de Pisa (Itália)
(Cartas a um jovem poeta, Biblioteca azul, trad. Paulo Rónai, 2013
Edição original: 1929)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Ulisses



Este é um velho frustrado por ter feito seu filho
muito tarde. Perscrutam-se às vezes, na cara
– noutros tempos bastava um tabefe. (O pai sai
e retorna com o filho que esfrega a bochecha
sem erguer mais os olhos.) O velho se senta
até a noite, diante da grande janela,
mas não passa ninguém pela rua deserta.

De manhã, o rapaz escapou e retorna
esta noite. Escarnece, decerto. A ninguém
vai dizer se comeu seu almoço. Talvez
tenha os olhos pesados e deite em silêncio:
duas botas de lama. Após um mês de chuva
a manhã era azul.

Pela fresca janela
entra um cheiro de folhas amargo. Já o velho
não se arreda do escuro e não dorme de noite,
mas queria ter sono e esquecer-se de tudo,
como outrora, ao voltar de uma longa jornada.
Aquecia-se, antes, gritando e batendo.

O rapaz, que já está de regresso, não leva
mais tapas.
O rapaz começou a crescer e descobre
cada dia algo novo e não fala a ninguém.

Não há nada na rua que escape ao olhar
daqui desta janela. E o rapaz perambula
todo o dia na rua. Não busca mulheres
e não brinca no chão. Ao final, sempre volta.
O rapaz tem um jeito de ir-se de casa
que, quem fica, se sente jogado de lado.



(Cesare Pavese, Trabalhar cansa, 2009, Ed. Cosac Naify & 7Letras. Tradução: Maurício Santana Dias. O original foi publicado em 1936.)

domingo, 1 de outubro de 2017

Alegria


                                                                                                                                                    para a Ludi

Nos dias em que o dia
parece coincidir com o teu desejo,
aguardas entre coisas que aguardam,
e entre coisas que ardem, ardes.
Aprendeste com os bichos os nomes dos bichos
e com o mar              
o amor enorme do mar.
E então estás alegre como um pátio
como uma coisa de barro
posta sobre a mesa.
Tens nas mãos um livro quente
de coisas para cantar.
Toda a geografia do verão.
Dispões de palavras suficientes
para o mundo de que dispões,
e a tua idade coincide com a idade que tens,
e as horas do dia equivalem
às horas do teu corpo acordado,
e a isso chamas alegria.
Mas há também dias de desenfreado desencontro
em que as tuas mãos incendeiam o que tocam
e a tua boca ultrapassa as palavras
e o teu amor não sabe do que é amor
e o teu corpo está agudo e esbarra
e não cabe no mundo,
corpo de limalha e noite sibilante.
E a isso chamas também alegria.


(Ana Martins Marques, A vida submarina, 2009, Ed. Scriptum)

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Oferendas para o velho aquático



Um deserto branco, um lamento de sirenas.
Um bombardeio noutro lugar.
Um deus que não é muita coisa.
Uma estátua de praça que se banha
desligada.

Não morrer aos trinta e três.
Um vento na praia do Diabo
que leve as peças do gamão e estrague o rádio.

A política máxima:
pentear cabelos brancos nas ondas.

Uns sulcos na cara,
um passado que ameace enxurrada
que a erosão ameaça.

Uma caravana que só passou naquela música.

(Victor Heringer,
Automatógrafo, 2011, Ed. 7Letras)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Factory

"1.
Meu Deus, e agora?

Factory é um objeto que tem como responsabilidade criar outro objeto.

Eu vou entrar agora na máquina aqui.

Aqui é o ponto fatal."


(Clique na ilustração abaixo e leia a crônica na íntegra. Crônica de escuta pura.)