domingo, 30 de novembro de 2025

Dois poemas de Cecília Meireles

 



DISCURSO

E aqui estou, cantando. 

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando. 

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim? 


***


ACEITAÇÃO

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens 
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos,

É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.


(Cecília Meireles, Viagem, 1939)



segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Um retrato

 

Foto: Ormuzd Alves/ Folhapress


Eu mal o conheci 

quando era vivo.

Mas o que sabe

um homem de outro homem?


Houve sempre entre nós certa distância,

um pouco maior que a desta mesa onde escrevo 

até esse retrato na parede

de onde ele me olha o tempo todo. Para quê?


Não são muitas as lembranças

que dele guardo: a aspereza 

da barba no seu rosto quando eu o beijava

ao chegar para as férias; 

o cheiro de tabaco em suas roupas;

o perfil mais duro do queixo 

quando estava preocupado;

o riso reprimido

até soltar-se (alívio!)

na risada.


Falava pouco comigo.

Estava sempre

noutra parte: ou trabalhando

ou lendo ou conversando

com alguém ou então saindo

(tantas vezes!) de viagem.


Só quando adoeceu e o fui buscar

em casa alheia

e o trouxe para a minha casa (que infinitos

os cuidados de Dora com ele!)

estivemos juntos por mais tempo.

Mesmo então dele eu só conheci

a luta pertinaz 

contra a dor, o desconforto,

a inutilidade forçada, os negaceios

da morte já bem próxima. 


Até o dia em que tive de ajudar

a descer-lhe o caixão à sepultura.

Aí então eu o soube mais que ausência.

Senti com minhas próprias mãos o peso

do seu corpo, que era o peso

imenso do mundo.

Então o conheci. E conheci-me. 


Ergo os olhos para ele na parede. 

Sei agora, pai, 

o que é estar vivo. 


(José Paulo Paes, Prosas seguidas de odes mínimas, 1992)