segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Um retrato

 

Foto: Ormuzd Alves/ Folhapress


Eu mal o conheci 

quando era vivo.

Mas o que sabe

um homem de outro homem?


Houve sempre entre nós certa distância,

um pouco maior que a desta mesa onde escrevo 

até esse retrato na parede

de onde ele me olha o tempo todo. Para quê?


Não são muitas as lembranças

que dele guardo: a aspereza 

da barba no seu rosto quando eu o beijava

ao chegar para as férias; 

o cheiro de tabaco em suas roupas;

o perfil mais duro do queixo 

quando estava preocupado;

o riso reprimido

até soltar-se (alívio!)

na risada.


Falava pouco comigo.

Estava sempre

noutra parte: ou trabalhando

ou lendo ou conversando

com alguém ou então saindo

(tantas vezes!) de viagem.


Só quando adoeceu e o fui buscar

em casa alheia

e o trouxe para a minha casa (que infinitos

os cuidados de Dora com ele!)

estivemos juntos por mais tempo.

Mesmo então dele eu só conheci

a luta pertinaz 

contra a dor, o desconforto,

a inutilidade forçada, os negaceios

da morte já bem próxima. 


Até o dia em que tive de ajudar

a descer-lhe o caixão à sepultura.

Aí então eu o soube mais que ausência.

Senti com minhas próprias mãos o peso

do seu corpo, que era o peso

imenso do mundo.

Então o conheci. E conheci-me. 


Ergo os olhos para ele na parede. 

Sei agora, pai, 

o que é estar vivo. 


(José Paulo Paes, Prosas seguidas de odes mínimas, 1992)

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