Existe a história do livro. E existe a nossa história com os livros.
Encontrei “Vazio pleno: relatório do cotidiano”, de Rachel Jardim, jogado no lixo, enquanto eu caminhava após uma sessão de análise. O título me capturou instantaneamente pelo que tem de paradoxal, mas também de familiar: já faz um tempo que tenho convivido com meu próprio vazio não apenas melancolicamente, como sempre fiz, mas também com graça, tranquilidade, senso de descoberta e de pertença, sem querer preencher nada. Então, decido retirar o livro da calçada, levá-lo comigo no retorno para casa e, na pior das hipóteses, abandoná-lo em algum banco de praça.
Achei que fosse um livro de auto-ajuda, devido ao título, mas descobri, logo nas primeiras páginas, que se trata do diário de uma escritora mineira, publicado em 1976. Rachel Jardim nasceu em Juiz de Fora, mas morava no Rio de Janeiro, era amiga de Murilo Rubião, frequentava as noites de autógrafos de João Cabral de Melo Neto e amava Katherine Mansfield e Carlos Drummond de Andrade. “Vazio pleno” é seu terceiro livro, após o romance de estreia “Os anos 40” e o livro de contos “Cheiros e ruídos”. Ela atravessava “o silêncio pesado que acompanha a publicação de um livro” e decidiu, então, acatar o conselho de Murilo Rubião de que escrevesse aqueles registros como uma “catarse diária”, que poderia atenuar o seu problema de angústia.
A partir daí, desfilam por essas páginas suas questões cotidianas: a relação com seus próprios livros, com os livros de autores que admira, o contraste entre a vida de escritora e de funcionária pública, seus encontros e relações com os amigos, passeios pelo Rio de Janeiro e por Minas Gerais, a sensação de deslocamento geográfico, de marginalidade, o olhar burguês para a realidade (autoconsciente em certa medida), preconceitos de classe social (nem tão conscientes assim), a vida autônoma de mulher separada que não pensa em se casar de novo, um amor do passado que sempre retorna ao seu pensamento, a rotina com os dois filhos, uma apatia, uma depressão que se insinua... Uma vida comum, como qualquer outra.
Como é bom acompanhar a vida de alguém assim, como quem não quer nada. Encontrar as ressonâncias da banalidade da nossa própria vida na vida do outro, poder apenas relaxar diante da sua honestidade, saber, com certo alívio, que somos apenas humanos vulneráveis, contraditórios, inconstantes, apaixonados pela beleza. Uma honestidade que é também do livro, pois não pretende ser nada além do que é, um registro dos pequenos acontecimentos, mas principalmente das suas repercussões íntimas, um registro do que passa e retorna outra vez para o vazio. Um diário sem datas.


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