segunda-feira, 9 de março de 2026

O nome

 


Estão demolindo

o edifício em que não morei. 

Tinha um nome

somente meu.


Meu, de mais ninguém

o edifício

não era meu.


Rápido passando

por sua fachada,

lia o nome

que era e é meu.


Cai o teto,

ruem as paredes

internas.

Continua o nome

vibrando entre janelas

buracos.


Sigo a destruição

de meu edifício. 

Amanhã o nome

letra por letra

se desletrará.


Ficará em mim

o nome que é meu?

Ficarei

para preservá-lo?


Amanhã o galo

cantará o fim

do que no edifício

e numa pessoa

cabe em um nome

e é mais do que nome?


(Carlos Drummond de Andrade, As impurezas do branco, 1973)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Ao momento presente


Como um bebê ou um cristal: tome-o nas mãos com muito cuidado. Ele pode quebrar, o momento presente. Escolha um fundo musical adequado — quem sabe, Mozart, se quiser uma ilusão de dignidade. Melhor evitar o rock, o samba-enredo, a rumba ou qualquer outro ritmo agitado: ele pode quebrar, o momento presente. Como um bebê, então, a quem se troca as fraldas, depois de tomá-lo nas mãos, desembrulhe-o com muito cuidado também. Olhe devagar para ele, parado no canto do quarto ou esquecido sobre a mesa, entre legumes, ou misturado às folhas abertas de algum jornal. Contemple o momento presente como um parente, um amigo antigo, tão familiar que não há risco algum nessa presença quieta, ali no canto do quarto. Como a uma laranja, redonda, dourada — mas sem fome, contemple o momento presente. Como a cinza de um cigarro que o gesto demorou demais, caída entre as folhas de um jornal aberto em qualquer página, contemple o momento presente. E deixe o vento soprar sobre ele.

Desligue a música, agora. Seja qual for, desligue. Contemple o momento presente dentro do silêncio mais absoluto. Mesmo fechando todas as janelas, eu sei, é difícil evitar esses ruídos vindos da rua. Os alarmes de automóveis que disparam de repente, as motos com seus escapamentos abertos, algum avião no céu, ou esses rumores desconhecidos que acontecem às vezes dentro das paredes dos apartamentos, principalmente onde habitam as pessoas solitárias. Mas não sinta solidão, não sinta nada: você só tem olhos que olham o momento presente, esteja ele — ou você — onde estiver. E não dói, não há nada que provoque dor nesse olhar.

Não há memória, também. Você nunca o viu antes. Tenha a forma que tiver — um bebê, um cristal, um diamante, uma faca, uma pera, um postal, um ET, uma moça, um patim — ele não se parece a nada que você tenha visto antes. Só está ali, à sua frente, como um punhado de argila à espera de que você o tome nas mãos para dar-lhe uma forma qualquer — um bebê, um cristal, um diamante e assim por diante. E se você não o fizer, ele se fará por si mesmo, o momento presente. Não chore sobre ele. No máximo um suspiro. Mas que seja discreto, baixinho, quase inaudível. Não o agarre com voracidade — cuidado, ele pode quebrar. Não ria dele, por mais ridículo que pareça. Fique todo concentrado nessa falta absoluta de emoção. Não espere nada dele, nenhuma alegria, nenhum incêndio no coração. Ele nada lhe dará, o momento presente.

Deixe que ele respire, como uma coisa viva. Respire você também, como essa coisa viva que você é. Contemple-o de frente, igual àquela personagem de Clarice Lispector contemplando o búfalo atrás das grades da jaula do jardim zoológico. Você pode estender a mão para ele, tentar uma carícia desinteressada. Mas será melhor não fazer gesto algum.

Ele não reagirá, mesmo todo pulsante, ali à sua frente.

Respire, respire. Conte até dez, até vinte talvez. Daqui a pouco ele vai começar a se  transformar em outra coisa, o momento presente. Qualquer coisa inteiramente imprevisível? Você não sabe, eu não sei, ele não sabe: os momentos presentes não têm o controle sobre si mesmos. Se o telefone tocar, atenda. Se a campainha chamar, abra a porta. Quando estiver desocupado outra vez, procure-o novamente com os olhos. Ele já não estará lá. Haverá outro em seu lugar. E então, como a um bebê ou a um cristal, tome-o nas mãos com muito cuidado. Ele pode quebrar, o momento presente. Experimente então dizer “eu te amo”. Ou qualquer coisa assim, para ninguém.


(Caio Fernando Abreu, Ao momento presente. In: Pequenas epifanias, 1996)


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Notas de leitura: "Vazio pleno: relatório do cotidiano", Rachel Jardim

 


Existe a história do livro. E existe a nossa história com o livro. Encontrei “Vazio pleno: relatório do cotidiano”, de Rachel Jardim, jogado no lixo, enquanto eu caminhava após uma sessão de análise. O título me capturou instantaneamente pelo que tem de paradoxal, mas também de familiar: já faz um tempo que tenho convivido com meu próprio vazio não apenas melancolicamente, como sempre fiz, mas também com graça, tranquilidade, senso de descoberta e de pertença, sem querer preencher nada. Então, decido retirar o livro da calçada, levá-lo comigo no retorno para casa e, na pior das hipóteses, abandoná-lo em algum banco de praça.

Achei que fosse um livro de auto-ajuda, devido ao título, mas descobri, logo nas primeiras páginas, que se trata do diário de uma escritora mineira, publicado em 1976. Rachel Jardim nasceu em Juiz de Fora, mas morava no Rio de Janeiro, era amiga de Murilo Rubião, frequentava as noites de autógrafos de João Cabral de Melo Neto e amava Katherine Mansfield e Carlos Drummond de Andrade. “Vazio pleno” é seu terceiro livro, após o romance de estreia “Os anos 40” e o livro de contos “Cheiros e ruídos”. Ela atravessava “o silêncio pesado que acompanha a publicação de um livro” e decidiu, então, acatar ao conselho de Murilo Rubião de que escrevesse aqueles registros como uma “catarse diária”, que poderia atenuar o seu problema de angústia.

A partir daí, desfilam por essas páginas suas questões cotidianas: a relação com seus próprios livros, com os livros de autores que admira, o contraste entre as vidas de escritora e de funcionária pública, seus encontros e relações com os amigos, passeios pelo Rio de Janeiro e por Minas Gerais, a sensação de deslocamento geográfico, de marginalidade, o olhar burguês para a realidade (autoconsciente em certa medida), preconceitos de classe social (nem tão conscientes assim), a vida autônoma de mulher separada que não pensa em se casar de novo, um amor do passado que sempre retorna ao seu pensamento, a rotina com os dois filhos, uma apatia, uma depressão que se insinua... Uma vida comum, como qualquer outra.

Como é bom acompanhar a vida de alguém assim, como quem não quer nada. Encontrar as ressonâncias da banalidade da nossa própria vida na vida do outro, poder apenas relaxar diante da sua honestidade, saber, com certo alívio, que somos apenas seres vulneráveis, contraditórios, inconstantes, apaixonados pela beleza. Uma honestidade que é também do livro, pois não pretende ser nada além do que é, um registro dos pequenos acontecimentos, mas principalmente das suas repercussões íntimas, um registro do que passa e retorna outra vez para o vazio. Um diário sem datas.




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Resenha: "Através, um durante"


Acaba de sair uma resenha crítica do meu livro "Através, um durante", escrita pelo escritor e editor Henrique Fendrich, criador da Revista Rubem. 

A Rubem pesquisa a crônica brasileira, reunindo autores clássicos e contemporâneos e cobrindo os principais acontecimentos relacionados a esse gênero.

Essa foi a primeira resenha que recebi sobre o meu trabalho, acho que isso a gente nunca esquece. Agradeço publicamente pela atenção destinada ao livro.

Para ler o texto completo, clique aqui.