quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Ao momento presente


Como um bebê ou um cristal: tome-o nas mãos com muito cuidado. Ele pode quebrar, o momento presente. Escolha um fundo musical adequado — quem sabe, Mozart, se quiser uma ilusão de dignidade. Melhor evitar o rock, o samba-enredo, a rumba ou qualquer outro ritmo agitado: ele pode quebrar, o momento presente. Como um bebê, então, a quem se troca as fraldas, depois de tomá-lo nas mãos, desembrulhe-o com muito cuidado também. Olhe devagar para ele, parado no canto do quarto ou esquecido sobre a mesa, entre legumes, ou misturado às folhas abertas de algum jornal. Contemple o momento presente como um parente, um amigo antigo, tão familiar que não há risco algum nessa presença quieta, ali no canto do quarto. Como a uma laranja, redonda, dourada — mas sem fome, contemple o momento presente. Como a cinza de um cigarro que o gesto demorou demais, caída entre as folhas de um jornal aberto em qualquer página, contemple o momento presente. E deixe o vento soprar sobre ele.

Desligue a música, agora. Seja qual for, desligue. Contemple o momento presente dentro do silêncio mais absoluto. Mesmo fechando todas as janelas, eu sei, é difícil evitar esses ruídos vindos da rua. Os alarmes de automóveis que disparam de repente, as motos com seus escapamentos abertos, algum avião no céu, ou esses rumores desconhecidos que acontecem às vezes dentro das paredes dos apartamentos, principalmente onde habitam as pessoas solitárias. Mas não sinta solidão, não sinta nada: você só tem olhos que olham o momento presente, esteja ele — ou você — onde estiver. E não dói, não há nada que provoque dor nesse olhar.

Não há memória, também. Você nunca o viu antes. Tenha a forma que tiver — um bebê, um cristal, um diamante, uma faca, uma pera, um postal, um ET, uma moça, um patim — ele não se parece a nada que você tenha visto antes. Só está ali, à sua frente, como um punhado de argila à espera de que você o tome nas mãos para dar-lhe uma forma qualquer — um bebê, um cristal, um diamante e assim por diante. E se você não o fizer, ele se fará por si mesmo, o momento presente. Não chore sobre ele. No máximo um suspiro. Mas que seja discreto, baixinho, quase inaudível. Não o agarre com voracidade — cuidado, ele pode quebrar. Não ria dele, por mais ridículo que pareça. Fique todo concentrado nessa falta absoluta de emoção. Não espere nada dele, nenhuma alegria, nenhum incêndio no coração. Ele nada lhe dará, o momento presente.

Deixe que ele respire, como uma coisa viva. Respire você também, como essa coisa viva que você é. Contemple-o de frente, igual àquela personagem de Clarice Lispector contemplando o búfalo atrás das grades da jaula do jardim zoológico. Você pode estender a mão para ele, tentar uma carícia desinteressada. Mas será melhor não fazer gesto algum.

Ele não reagirá, mesmo todo pulsante, ali à sua frente.

Respire, respire. Conte até dez, até vinte talvez. Daqui a pouco ele vai começar a se  transformar em outra coisa, o momento presente. Qualquer coisa inteiramente imprevisível? Você não sabe, eu não sei, ele não sabe: os momentos presentes não têm o controle sobre si mesmos. Se o telefone tocar, atenda. Se a campainha chamar, abra a porta. Quando estiver desocupado outra vez, procure-o novamente com os olhos. Ele já não estará lá. Haverá outro em seu lugar. E então, como a um bebê ou a um cristal, tome-o nas mãos com muito cuidado. Ele pode quebrar, o momento presente. Experimente então dizer “eu te amo”. Ou qualquer coisa assim, para ninguém.


(Caio Fernando Abreu, Ao momento presente. In: Pequenas epifanias, 1996)


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Notas de leitura: "Vazio pleno: relatório do cotidiano", Rachel Jardim

 


Existe a história do livro. E existe a nossa história com o livro. Encontrei “Vazio pleno: relatório do cotidiano”, de Rachel Jardim, jogado no lixo, enquanto eu caminhava após uma sessão de análise. O título me capturou instantaneamente pelo que tem de paradoxal, mas também de familiar: já faz um tempo que tenho convivido com meu próprio vazio não apenas melancolicamente, como sempre fiz, mas também com graça, tranquilidade, senso de descoberta e de pertença, sem querer preencher nada. Então, decido retirar o livro da calçada, levá-lo comigo no retorno para casa e, na pior das hipóteses, abandoná-lo em algum banco de praça.

Achei que fosse um livro de auto-ajuda, devido ao título, mas descobri, logo nas primeiras páginas, que se trata do diário de uma escritora mineira, publicado em 1976. Rachel Jardim nasceu em Juiz de Fora, mas morava no Rio de Janeiro, era amiga de Murilo Rubião, frequentava as noites de autógrafos de João Cabral de Melo Neto e amava Katherine Mansfield e Carlos Drummond de Andrade. “Vazio pleno” é seu terceiro livro, após o romance de estreia “Os anos 40” e o livro de contos “Cheiros e ruídos”. Ela atravessava “o silêncio pesado que acompanha a publicação de um livro” e decidiu, então, acatar ao conselho de Murilo Rubião de que escrevesse aqueles registros como uma “catarse diária”, que poderia atenuar o seu problema de angústia.

A partir daí, desfilam por essas páginas suas questões cotidianas: a relação com seus próprios livros, com os livros de autores que admira, o contraste entre as vidas de escritora e de funcionária pública, seus encontros e relações com os amigos, passeios pelo Rio de Janeiro e por Minas Gerais, a sensação de deslocamento geográfico, de marginalidade, o olhar burguês para a realidade (autoconsciente em certa medida), preconceitos de classe social (nem tão conscientes assim), a vida autônoma de mulher separada que não pensa em se casar de novo, um amor do passado que sempre retorna ao seu pensamento, a rotina com os dois filhos, uma apatia, uma depressão que se insinua... Uma vida comum, como qualquer outra.

Como é bom acompanhar a vida de alguém assim, como quem não quer nada. Encontrar as ressonâncias da banalidade da nossa própria vida na vida do outro, poder apenas relaxar diante da sua honestidade, saber, com certo alívio, que somos apenas seres vulneráveis, contraditórios, inconstantes, apaixonados pela beleza. Uma honestidade que é também do livro, pois não pretende ser nada além do que é, um registro dos pequenos acontecimentos, mas principalmente das suas repercussões íntimas, um registro do que passa e retorna outra vez para o vazio. Um diário sem datas.




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Resenha: "Através, um durante"


Acaba de sair uma resenha crítica do meu livro "Através, um durante", escrita pelo escritor e editor Henrique Fendrich, criador da Revista Rubem. 

A Rubem pesquisa a crônica brasileira, reunindo autores clássicos e contemporâneos e cobrindo os principais acontecimentos relacionados a esse gênero.

Essa foi a primeira resenha que recebi sobre o meu trabalho, acho que isso a gente nunca esquece. Agradeço publicamente pela atenção destinada ao livro.

Para ler o texto completo, clique aqui. 

domingo, 30 de novembro de 2025

Dois poemas de Cecília Meireles

 



DISCURSO

E aqui estou, cantando. 

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando. 

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim? 


***


ACEITAÇÃO

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens 
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos,

É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.


(Cecília Meireles, Viagem, 1939)



segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Um retrato

 

Foto: Ormuzd Alves/ Folhapress


Eu mal o conheci 

quando era vivo.

Mas o que sabe

um homem de outro homem?


Houve sempre entre nós certa distância,

um pouco maior que a desta mesa onde escrevo 

até esse retrato na parede

de onde ele me olha o tempo todo. Para quê?


Não são muitas as lembranças

que dele guardo: a aspereza 

da barba no seu rosto quando eu o beijava

ao chegar para as férias; 

o cheiro de tabaco em suas roupas;

o perfil mais duro do queixo 

quando estava preocupado;

o riso reprimido

até soltar-se (alívio!)

na risada.


Falava pouco comigo.

Estava sempre

noutra parte: ou trabalhando

ou lendo ou conversando

com alguém ou então saindo

(tantas vezes!) de viagem.


Só quando adoeceu e o fui buscar

em casa alheia

e o trouxe para a minha casa (que infinitos

os cuidados de Dora com ele!)

estivemos juntos por mais tempo.

Mesmo então dele eu só conheci

a luta pertinaz 

contra a dor, o desconforto,

a inutilidade forçada, os negaceios

da morte já bem próxima. 


Até o dia em que tive de ajudar

a descer-lhe o caixão à sepultura.

Aí então eu o soube mais que ausência.

Senti com minhas próprias mãos o peso

do seu corpo, que era o peso

imenso do mundo.

Então o conheci. E conheci-me. 


Ergo os olhos para ele na parede. 

Sei agora, pai, 

o que é estar vivo. 


(José Paulo Paes, Prosas seguidas de odes mínimas, 1992)

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Elogio à irmã

 


Minha irmã não escreve poemas

e acho que nem vai de repente começar a escrever poemas.

Puxou isso da nossa mãe, que não escrevia poemas,

e do nosso pai, que também não escrevia poemas. 

Sob o teto de minha irmã me sinto segura:

o marido de minha irmã por nada no mundo escreveria poemas.

E embora isso soe repetitivo como uma litania,

nenhum dos nossos parentes se ocupa em escrever poemas.


Nas gavetas de minha irmã não existem poemas antigos,

nem na sua bolsa, poemas recém-escritos.

E quando minha irmã me convida para almoçar,

sei que não tenciona ler poemas para mim. 

Faz sopas deliciosas sem premeditação. 

E não derrama café sobre manuscritos.


Em muitas famílias ninguém escreve poemas,

mas se isso acontece – é raro ficar numa só pessoa. 

Às vezes a poesia desce em cascatas pelas gerações,

criando turbilhões perigosos nos sentimentos mútuos.


Minha irmã pratica uma razoável prosa falada,

e toda a sua obra se limita a postais escritos nas férias,

cujo texto promete o mesmo todo ano:

que ao voltar

tudo 

tudo

tudinho ela vai contar.


(Wislawa Szymborska, em "Um amor feliz". Tradução: Regina Przybycien)

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Dois poemas de Walt Whitman

 



QUANDO EM TEU COLO DEITEI A CABEÇA, MEU CAMARADA

Quando em teu colo deitei a cabeça, meu camarada,
a confissão que fiz eu reafirmo,
o que eu te disse e a céu aberto
eu reafirmo: sei bem que sou inquieto
e deixo os outros também assim,
eu sei que minhas palavras são armas
carregadas de perigo e de morte,
pois eu enfrento a paz e a segurança
e as leis mais enraizadas
para as desenraizar,
e por me haverem todos rejeitado
mais resoluto sou
do que jamais poderia chegar a ser
se todos me aceitassem,
eu não respeito e nunca respeitei
experiência, conveniência,
nem maiorias, nem o ridículo,
e a ameaça do que chamam de inferno
para mim nada é, ou muito pouco,
meu camarada querido: eu confesso
que o incitei a ir em frente comigo
e que ainda o incito sem a mínima ideia
de qual venha a ser nosso destino
ou se vamos sair vitoriosos
ou totalmente sufocados e vencidos.

 

***

 

ÀS VEZES COM A PESSOA A QUEM AMO

 

Às vezes com a pessoa a quem amo

fico cheio de raiva

por medo de estar só eu dando amor

sem ser retribuído;

e agora eu penso que não pode haver amor

sem retribuição, que a paga é certa

de uma forma ou de outra.

(Amei certa pessoa ardentemente

e meu amor não foi correspondido,

mas foi daí que eu tirei estes cantos.)

 

(Walt Whitman, Folhas das folhas de relva. Tradução: Geir Campos)


sábado, 2 de agosto de 2025

"Através, um durante", meu segundo livro

 



"Através, um durante", meu segundo livro, reúne crônicas que escrevi entre 2014 e 2022 e publiquei virtualmente. Fui percebendo, ao longo do tempo, que, apesar de terem sido escritas em momentos diferentes, havia entre elas diálogos, pontos de contato, trajetos comuns. Então, decidi publicar esse livro, que foi tão bem acolhido pela Editora Tamboril, primeira casa editorial da minha terra, Pirapora (MG).

Um livro que me pôs em movimento. Foram dois lançamentos, um em Pirapora (MG), outro em Buritizeiro (MG), numa e noutra margem do Rio São Francisco, assim como foram as duas oficinas de escrita, "Escrever com os pés", a distribuição de livros em escolas, os encontros, as dedicatórias. Eu não sabia bem como atuar nesse teatro de ser escritor, mas aprendi alguma coisa nesses rituais todos, embora eu ainda não saiba o quê.

Nos quinze primeiros dias do mês de junho, vivi tantas novas travessias que, durante esse intervalo de tempo, eu não pude senão viver. Não consegui narrar. Na verdade, até agora, eu ainda não disse algo consistente sobre esse livro, e isso porque não consegui, simplesmente. Eu estava cuidando de apenas me movimentar. E mesmo agora, enquanto me desloco de ônibus de Pirapora em direção a Belo Horizonte, eu também sinto que não consigo dizer - ou tocar.

O que é mais curioso é que esse livro talvez seja exatamente sobre isto: o que acontece enquanto eu me desloco. Um registro íntimo das passagens. Crônicas que registram os meus pés no espaço. As janelas.

Caminhar basta, escrevo em determinado ponto do livro. Toda a sabedoria consiste em ordenar os passos, mais nada.


***


Sinopse

"Através, um durante", de Douglas Ferreira, reúne crônicas que se dedicam a registrar pequenas travessias geográficas e íntimas. São muitos os trajetos percorridos pelo narrador caminhante: atravessar uma trilha, um quarto, o caminho entre a praça e a casa, a própria casa, a distância superável por uma carta, a distância entre duas cidades, dois países estrangeiros, duas línguas, duas personalidades distintas, o abismo entre um filho e um pai. Trata-se de um narrador que expõe também como atravessar a própria escrita. Através do procedimento da montagem e da colagem, compõe frases que vai escutando na boca do outro ou nas referências acumuladas pelo caminho. A paisagem barranqueira, lugar de partida dessas crônicas, sempre retorna ao texto, diretamente ou como eco, já que esse narrador está continuamente indo de um lugar a outro do mapa, fazendo fretes. Assim, neste livro, Douglas Ferreira afirma a identidade barranqueira como um lugar em constante movimento, permeado de partidas e de chegadas, de saídas e de retornos para casa.

Ficha técnica

Editora: Tamboril 
Coordenação editorial: Rafael Oliveira
Capa: Sissa Morais
Projeto gráfico e ilustrações: Vinícius Ribeiro
Prefácio: Joaquina Nobre

Onde comprar?

Na Biblioteca Tamboril, em Pirapora-MG, nas redes sociais da Editora Tamboril ou diretamente comigo.


Leia mais aqui.


(Vinícius Ribeiro)