sábado, 27 de julho de 2013
Canção de vidro
E nada vibrou...
Não se ouviu nada...
Nada...
Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.
Cala, amigo...
Cuidado, amiga...
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre...
E é tão puro o silêncio agora!
(Mario Quintana)
terça-feira, 23 de julho de 2013
Em tempos de visita do Papa
Frequentava a igreja na manhã dos domingos
O que fazia na capela escura,
enquanto o dia aberto, ensolarado,
convidava-me à escadaria e aos morros?
A luz não se ajoelhava.
Meus pecados não sabiam que eu existia.
Rezar pareceu-me um sacrifício,
a espiral do peixe a seco,
contorcendo-se no banco de uma missa,
pedindo que não chovesse à tarde.
Deus falava uma língua adulta.
(Fabrício Carpinejar)
terça-feira, 16 de julho de 2013
Carta escrita durante uma aula qualquer, pois o mundo está cheio de educação qualquer
Paulo,
você foi um herói. Ter pensado uma nova educação, sem
hierarquia, sem arrogância, sem verticalidade, sem demasia, em um mundo que
valoriza a pirâmide, o dado, o estanque foi uma missão heroica. Mas você me
deixou sozinho, Paulo. Sozinho neste mundo cão. Num mundo que não escuta, não
critica, não politiza, não revoluciona. Entrar numa sala de aula tradicional é
como ser engolido por um monstro frio; goela abaixo entramos numa máquina
cinza, insensível, que pouco se importa com o outro, com o novo, com o poético.
Lugar de boca, ausência de ouvidos. Essa máquina se chama educação bancária,
Paulo. E foi você quem a nominou.
As cadeiras de minha sala de aula são presas ao chão. O
professor de minha sala de aula não quer ouvir a multidão, ele é um instrumento
opressor. Alguma força invisível me largou neste modelo de educação, neste
sistema sombrio. Você pensou algo diferente, Paulo, mas me deixou aqui,
medroso. Haverá espaço para a revolução fora da gente? Haverá tempo? Haverá
coragem?
Paulo, me fale em sonho, ou acordado, onde você deixou
enterrado aquele seu baú de esperança, onde há uma folha de papel em branco e
um lápis. Também há uma borracha no seu baú, eu sei, pois a gente erra e sempre
será preciso reescrever. Sempre. Já está na hora? O presente é o melhor tempo,
o tempo verde, de mãos e de vontade. Virá você até o presente, Paulo? Virá me
buscar? Ou será tempo de cada um ser um novo Paulo, um novo Paulo Freire,
haverá espaço para uma legião?
Onde você está, como é a educação?
Só preciso de um pouco de cuidado.
Revolução é, em meio ao caos, cuidar de um botão de flor.
Abraços afetuosos.
Saudade de você.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Confianças
Senta à mesa e escreve…
Com este poema não tomarás o poder, dizem…
Con estes versos não farás a revolução, dizem…
Nem com milhares de versos farás a revolução, dizem…
E mais…
Esses versos não vão servir a ele para que
peões, professores, lenhadores
vivam melhor, comam melhor.
Ou para que ele mesmo coma, viva melhor.
Nem para apaixonar a outros servirão.
Não ganhará dinheiro con eles.
Não entrará no cinema grátis con eles.
Não lhe darão roupa por eles.
Não conseguirá tabaco ou vinho por eles.
Nem papagaios,
Nem cachecóis,
nem barcos,
nem touros,
nem guarda-chuvas conseguirá por eles.
Se for por eles,
a chuva o molhará.
Não alcançará perdão ou graça por eles.
Com este poema não tomarás o poder, dizem…
Comn estes versos não farás a revolução, dizem…
Nem com mihares de versos farás a revolução, dizem…
Senta à mesa e escreve…
(Juan Gelman, Argentina)
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