domingo, 3 de maio de 2026

Catálogo de endereços


(Capa: Elza Silveira, Impressões de Minas)


Comecei a escrever este livro ainda na infância. Nasci e cresci na periferia de Pirapora, interior de Minas Gerais, à beira do Rio São Francisco, numa casa sem livros. Os poucos que existiam eram os meus, que fui ganhando ao longo da vida. Além desses, existiam revistas da Avon, Natura, Hermes, que minhas tias vendiam, e as listas telefônicas, que ficavam no rack, abaixo do telefone fixo. Eram, sobretudo, essas listas que eu gostava de manusear, folhear – e ler. Ali eu encontrava os nomes dos meus familiares, dos familiares dos meus amigos, os nomes dos estabelecimentos da minha cidade, o nome da minha própria cidade, impressos em páginas amarelas e gastas. Havia grifos, destaques, por vezes alguns números e nomes importantes eram manuscritos na capa ou na primeira página para não serem esquecidos.

Nomes, números de telefone, anúncios publicitários e endereços. Apesar da objetividade de uma lista, ali eu encontrava os lugares que eu ia, as pessoas que eu conhecia, números que eu sabia de cor. Então, aquelas publicações eram também afetivas e minha família inteira as usava, lia junto. Era como se toda a cidade pudesse caber ali, numa publicação impressa, e folheá-la fosse caminhar pelas ruas. Ler e caminhar possuem o mesmo sentido para mim, e acho que aprendi isso ali, passeando por páginas de listas telefônicas. Hoje, o Douglas adulto, já em Belo Horizonte, caminha pela cidade lendo nomes de ruas, fachadas de estabelecimentos, pixos, placas de trânsito, outdoors, anúncios publicitários... como se folheasse uma lista antiga. Há muito para ler, recortar e colher do texto urbano, e “Catálogo de endereços”, meu primeiro livro de poesia, foi escrito a partir dessa recolha.



(Arquivo do autor)

Outro aspecto que sempre me fascinou nas listas telefônicas, desde a infância, é o fato de serem objetos perecíveis. Anualmente, ou de dois em dois anos, chegava uma nova, o que me inquietava: por que isso acontecia? Logo fui concluindo que essa atualização constante se devia a dois sentidos básicos: nascer e morrer. Novos telefones eram acrescentados e outros precisavam ser retirados, porque seus donos já não existiam. No processo de pesquisa para este livro, recuperei alguns catálogos de Pirapora e do norte de Minas para compor o projeto gráfico e pude constatar essa verdade incontornável com meu próprio caso. Minha avó, Dona Rosa, tinha um número cadastrado em seu nome: (38) 3741-2442. Era um número importante, as pessoas do bairro inteiro que não tinham telefone fixo pediam a ela para usarem essa linha, recebiam ligações de parentes da Bahia, faziam ligações para pessoas distantes. No entanto, após 2014, esse número que sempre estivera ali, deixou de existir nas listas telefônicas subsequentes. Minha avó tinha morrido. E eu poderia ter constatado isso de diversas formas, mas constatei a partir da falta do seu nome.

Objeto impossível, esses catálogos querem registrar um mundo inteiro em páginas frágeis, de papel barato. Existe algo de poético e de pueril nisso, algo quase quixotesco, que percebi e guardei dentro de mim ali, na infância, dentro de uma casa que não existe mais, que continha uma linha telefônica que agora só existe, ainda decorada, dentro da minha cabeça.

Em 2015, comecei a escrever poemas narrativos, que transitavam por cidades, observavam o mundo e liam os textos impressos nas ruas e estradas. Eu anotava nomes que me chamavam atenção de alguma forma: Motel Dubai, Frigorífico Pantanal, Cidade Nova, Esperança Materiais de Construção, Rua Oeste... Enunciados objetivos e poéticos espalhados pelas placas de trânsito: “Fique atento aos desvios”, “Sob neblina, reduzir a velocidade”, “Sob neblina, farol baixo”, “Área de soltura de cobras”, “Área de espera”... E esses nomes e enunciados prontos, apenas recolhidos, foram virando versos, estrofes, títulos, poemas. Utilizei procedimentos da poesia modernista que eu admirava, principalmente aprendidos com Oswald de Andrade, como ready-made, recorte, colagem, montagem e sobreposição para compor os poemas que nasciam. E, um dia, caminhando numa rua qualquer, me dei conta de que eu estava escrevendo o meu próprio catálogo de endereços.

Em 2023, marquei uma reunião na Impressão de Minas para apresentar o projeto e Elza Silveira e Wallison Gontijo o acolheram com generosidade. Eu queria que o livro trouxesse à tona a estética das listas telefônicas, que hoje não são impressas mais, e sabia que essa editora conseguiria alcançar esse resultado pelo seu caráter experimental na edição dos livros. Está feito. Com a ajuda da minha família em Pirapora, conseguimos salvar da extinção catálogos que circularam no norte de Minas entre 2001 e 2018. Distribuímos essas páginas reais por cada um dos livros da 1ª tiragem, de tal modo que cada exemplar agora é único, pois contém páginas diferentes. Além de trazer o amarelo característico dessas publicações para o projeto gráfico, recortamos anúncios publicitários e compusemos poemas com eles. Por fim, o título e o nome de autor foram impressos em tipografia, remetendo às primeiras listas do final do século XIX, que eram impressas em jornais.

Este livro, portanto, se equilibra entre o kitsch e o belo, entre a objetividade da lista e a subjetividade poética, entre a rua e o quarto. Quer, ao recolher o texto que não é de ninguém e está aí, espalhado pela paisagem, construir lugares, onde se constroem e se arruínam nossos afetos. 


(O livro está disponível diretamente comigo ou no site da Impressões de Minas)






(As fotos do lançamento, que aconteceu no dia 25/04/26 em Belo Horizonte/MG, 

foram tiradas pela fotógrafa Reisla Oliveira)

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