quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Literatura Brasileira Contemporânea

Estou lendo Verônica Stigger. E um bom texto é medido, entre outras coisas, pela capacidade que tem de nos levar a outros textos, outras articulações do pensamento. Ou seja, o bom texto é aquele que não nos aprisiona nele próprio. E isso é sabido. 

Quando leio a literatura brasileira contemporânea, neste caso o "Opisanie Swiata", fico pensando o tempo inteiro em quanto desconhecemos, no geral, nossa própria literatura, do nosso próprio tempo. E isso me angustia. Pensando nisso, mas consciente de que não vou resolver sozinho o problema, criei um álbum no facebook em que indico esse tipo de leitura. As postagens podem ser acompanhadas aqui. 

As margens de ação individual são limitadas, sei. Mas, é o que temos (ainda). 

Boa leitura.;) 


terça-feira, 6 de outubro de 2015

A paisagem mudara


“Bopp (…) voltou a se ocupar com a paisagem. Os campos pareciam ser sempre os mesmos. Os mesmos animais. As mesmas poucas e pequenas casas. As mesmas pessoas. Bopp se lembrou de que, quando era pequeno e o levavam a viajar de trem, seu pai o fazia contar as vacas que via no pasto. Isso o entretinha a viagem toda. Mas também o angustiava, porque ele não conseguia enumerar todas e se perdia na soma. Era só terminar de contar as que estavam mais próximas à linha do trem que já perdia de vista as que ficavam em segundo plano. Se começava a contagem pelas do fundo, não obtinha melhor resultado: quando chegava às da frente, a frente não era mais a mesma. A paisagem mudara. O trem já tinha andado e deixado aquelas vacas para trás. Então ele se desesperava. Queria recomeçar do zero, mas não era mais possível, não tinha como fazer o trem voltar. Quando se perdia mais de uma vez, quando se perdia duas ou três vezes, ele, que até aquele instante ria com seu riso livre de menino, se botava a chorar. Chorava alto porque não sabia mais por quantas vacas tinha passado e queria provar ao pai que era capaz de contar todas as vacas que visse na estrada. Mas nunca conseguia. Nessas horas, seu pai sorria e o abraçava apertado. Dizia para fingirem que a viagem começava naquele ponto em que estavam e propunha que os dois reiniciassem juntos a contagem das vacas. Quando eles se perdiam ou quando não eram rápidos o bastante para contar todas, os dois riam, Bopp chorava de tanto rir, e, quando davam por si, já tinham chegado ao destino.”

(Verônica Stigger, Opisanie Swiata.
Cosac Naify Editora, 2013)  

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Menos uma definição absoluta, mais o início de uma discussão



“(…) O material do poeta é a vida, dissemos. (…) É que a vida é para todos um fato cotidiano. Ela o é pela dinâmica mesma de suas contradições, pelo equilíbrio mesmo de seus polos contrários. (…)

Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas contradições, no eixo desses contrários. Não viva ele assim, e transformar-se-á certamente, dentro de um mundo em carne viva, num jardinista, num floricultor de espécimes que, por mais belos sejam, pertencem antes a estufas que ao homem que vive nas ruas e nas casas. Isto é: pelo menos para mim. E não é outra a razão pela qual a poesia tem dado à História, dentro do quadro das artes, o maior, de longe o maior número de santos e de mártires. Pois, individualmente, o poeta é, ai dele, um ser em constante busca de absoluto e, socialmente, um permanente revoltado. Daí não haver por que estranhar o fato de ser a poesia, para efeitos domésticos, a filha pobre na família das artes, e um elemento de perturbação da ordem dentro da sociedade tal como está constituída.

Diz-se que o poeta é um criador, ou melhor, um estruturador de línguas e, sendo assim, de civilizações. Homero, Virgílio, Dante, Chaucer, Shakespeare, Camões, os poetas anônimos do Cantar de Mío Cid vivem à base dessas afirmações. Pode ser. Mas para o burguês comum a poesia não é coisa que se possa trocar usualmente por dinheiro, pendurar na parede como um quadro, colocar num jardim como uma escultura, pôr num toca-discos como uma sinfonia, transportar para a tela como um conto, uma novela ou um romance, nem encenar, como um roteiro cinematográfico, um balé ou uma peça de teatro. Modigliani – que se fosse vivo seria multimilionário como Picasso – podia, na época em que morria de fome, trocar uma tela por um prato de comida: muitos artistas plásticos o fizeram antes e depois dele. Mas eu acho difícil que um poeta possa jamais conseguir o seu filé em troca de um soneto ou de uma balada. Por isso me parece que a maior beleza dessa arte modesta e heroica seja a sua aparente inutilidade. Isso dá ao verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da vida. Seu único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua longa luta contra natureza e contra si mesmos para se realizarem em amor e tranquilidade.”


(Vinícius de Moraes, na crônica Sobre a poesia, publicada no livro Para viver um grande amor, 1966, Livraria José Olympio Editora: Rio de Janeiro)

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Estou à venda



"Escorre", o tal livro de poemas artesanal, está à venda. Algumas más línguas (dentro da minha cabeça) dizem que também estou me vendendo. Aquiesço.

O preço é: doze reais (mais frete, se for o caso).

Para quem se interessar, favor, mandar mensagem inbox manifestando interesse e informando endereço. Aqui, meu facebook. Ou podem pedir por e-mail: douglasdeoliveiratomaz@gmail.com

Alguns informes:

a) a última semana, de tão bizarra, me fez aceitar o crescimento natural do meu cabelo. sem podas até segunda ordem.

b) várias mínimas coisas não andam dando certo, como: zíper da mochila, costura do sapato, calças jeans, microsoft office – tudo ao mesmo tempo. definitivamente, não sei lidar com as mínimas coisas.

c) no último sábado pela manhã, um personagem meu, caminhoneiro, bateu à minha porta. tivemos um diálogo.

d) na ocasião, ele me encontrou com o cabelo em pasta, devido à hidratação. me controlei e não pedi qualquer desculpa.

té.



p.s. I.: mais do que deus, ou o destino, ou o acaso, a Crise, esta palavra desgastada, ganhou agora o poder de tudo justificar.

p.s. II: como pôde ser constatado, além de não saber costurar calças e zíperes, ainda não aprendi como escrever texto publicitário.


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Adélio Brasil, o costureiro

Entrevistar Adelinho foi muito fácil. A começar pela permissão íntima de se usar o nome no diminutivo; fácil também pelo ambiente confortável de sua casa, pelo vento de março que agitava as árvores da rua e abraçava nossa conversa, pela generosidade com que ele interrompia a entrevista para oferecer suco, cerveja, vinho, qualquer carinho que o valha. Sobretudo fácil, porque todas as perguntas foram respondidas antes mesmo de terem sido feitas. Bastava ouvir. E ouvir, quando o emissor é um exímio contador de histórias, que prolonga ou encurta palavras no momento certo, aumenta ou diminui a entonação da voz no intuito de ênfase, pausa, sabe o peso que cada palavra tem, enfim, ouvir nesse caso é fácil, muito fácil.
 
(trecho de entrevista produzida por Davi e por mim para O Salto. leia-a na íntegra clicando na foto abaixo. divirta-se.)

http://osaltobarranqueiro.blogspot.com.br/2015/09/adelio-brasil-o-costureiro.html

domingo, 6 de setembro de 2015

Variações sobre o indizível ou para desconsolar o domingo

1) Do Victor Heringer, este texto sobre Aylan Kurdi, aqui.

2) Sobre o mesmo menino, mas um poema do Jefferson Vasques, aqui.

3) E saruês e mais e ainda. Do Lucas Gehre, aqui.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015